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12.4.15

A Visão Yogi da Respiração... num Piscar de Olhos


Sabemos que um estímulo produzido na mente pelos objectos dos sentidos reflecte-se na nossa respiração. O mesmo acontece quando surge uma recordação, um pensamento ou emoção que vem do nosso interior. Por essa razão podemos dizer que a respiração é o elo de comunicação entre o nosso interior e o mundo exterior, entre o corpo e a mente. Sabemos também que respirar é um processo semi-voluntário. 
Então será que podemos interferir conscientemente nos ritmos respiratórios e com isso interferir nos processos mentais? Será que o desenvolvimento mental representa o potencial máximo das capacidades do ser humano? Ou existe uma fonte de conhecimento maior situada além da mente?

Aproveito para deixar-vos algumas citações:

“O conhecimento da natureza da expiração (rechaka) liberta a mente da ilusão, do eu aparente enraizado no ego. A verdadeira inspiração (púraka) é a realização da natureza do ser puro (átma).” Aparokshanubhuti, de Adi Shankarachárya

“A inspiração é responsável pela produção e harmonia dos ingredientes essenciais do corpo, enquanto que a retenção melhora a conservação da vida que é realizada com a suspensão da respiração. A expiração destrói todos os males da mente e impurezas do corpo e o praticante alcança o estatuto de Yogi. Assim, depois da expiração o praticante deve permanecer firme e repetir a prática, de forma ritmada e com profunda concentração.” Shiva Svarodhaya (377, 378)

“Quando o Prána do Yogi se expande lenta e adequadamente, ele têm a Consciência de que tudo é o mesmo, têm a Consciência da Unicidade.” Shiva Sutra

Boas Reflexões e Auspiciosas Práticas!

Abraço, 
Gonçalo Correia

4.10.14

Jñana Ashtanga: os Oito Membros do Conhecimento*

Sri Ramana Maharishi

O jñana ashtanga aqui referido é retirado do Vichara Sangraham. Tudo indica que esta seja a primeira obra alguma vez escrita por Sri Ramana Maharishi por volta de 1901 quando tinha apenas 22 anos. Nessa altura, vivia na gruta Virupaksha na montanha sagrada de Arunachala. 
A obra surgiu a partir das questões que lhe foram colocadas por um certo número de discípulos que se reuniam à sua volta, apesar da sua tenra idade já era um reconhecido Mestre. Suas respostas são directas, maduras, profundas e práticas, e trazem clareza às questões do caminho da investigação sobre o Ser ou Verdadeiro Eu.
   
Questão: Quais são os oito membros do conhecimento (jñana ashtanga)?

Ramana Maharishi: Os oito membros (ou etapas) são aqueles que já foram referidos, a saber, yama, niyama, etc., mas definidos de modo distinto:

1 – Yama: Este é o controlo do conjunto dos orgãos dos sentidos, compreendendo os defeitos presentes no mundo nomeadamente no corpo, etc.
2 – Niyama: Este é manter o fluxo dos modos mentais relacionados com o Ser e rejeitando os outros modos contrários. Por outras palavras, isso significa que o amor surge ininterruptamente pelo Ser Supremo.
3 – Asana: Aquilo, que com a sua ajuda, torna possível a meditação constante no Brahman com facilidade é Asana.
4 – Pranayama: Rechaka (expiração) é a remoção dos dois aspectos irreais, o nome e a forma, dos objectos que constituem o mundo, o corpo, etc., puraka (inspiração) é  conhecer os três aspectos reais, existência, consciência e bem-aventurança, que são constantes nesses objectos, e kumbhaka é manter esses aspectos anteriormente conhecidos.
5 – Pratyahara: Isto é impedir que o nome e a forma que foram removidos voltem a entrar na mente.
6 – Dharana: Isto é fazer com que a mente fique no Coração, sem que se volte para fora, e realizar que o próprio Ser é Existência-Consciência-Bem-Aventurança. 
7 – Dhyana: Isto é meditação na forma ‘Eu sou apenas consciência pura’. Ou seja, depois de deixar de lado o corpo que é composto por cinco bainhas, interrogo-me ‘Quem sou Eu?’, e como resultado disso, permaneço como o ‘Eu’ que resplandece enquanto o Ser.
8 – Samadhi: Quando a ‘manifestação do Eu’ também cessa, surge a experiência directa (subtil). Isso é o samadhi.

Quanto ao pranayama etc., detalhado aqui, as disciplinas como o asana, etc, mencionadas com relação ao yoga não são necessárias. Os membros do conhecimento podem ser praticados em todos os lugares e em todos os momentos. Do yoga e do conhecimento, pode-se seguir o que fôr mais agradável para si, ou ambos, de acordo com as circunstâncias. Grandes professores dizem que o esquecimento é a raiz de todo o mal, e é a morte para aqueles que buscam a libertação, assim deve-se repousar a mente no seu próprio Ser, sem nunca esquecê-lo: este é o objectivo. Se a mente for controlada tudo o mais pode ser controlado. A diferença entre yoga com oito membros e conhecimento com oito membros foi definida elaboradamente nos textos sagrados; assim apenas o essencial deste ensinamento foi aqui dado.

 * tradução a partir do inglês para o português por Gonçalo Correia


2.10.13

Yoga Vasistha


Diálogo entre Brahmarishi Vasistha e o Príncipe Rama sobre a Doença (Vyadhi e Adhi) e suas Causas


Por Gonçalo Correia

O Yoga Vasistha

Muitos associam o nome Vasistha a um ásana com o mesmo nome: o Vasisthásana (ardha-vasisthásana na foto em baixo). Porém, talvez desconheçam que esta postura é dedicada em homenagem ao sábio, guru do príncipe de Rama e de seus irmãos. É com a intenção de dar a conhecer um pouco mais sobre Vasistha e os seus ensinamentos que escrevo este texto.
A história do encontro entre Vasistha e Rama pode ser conhecida no Yoga Vasistha, também conhecido por Jnana Vasistham, um tratado onde podemos ‘beber’ dos seus ensinamentos. 
O livro encontra-se dividido em seis secções: vairagya prakaranam (sobre o desapego), mumukshu prakaranam (sobre o comportamento do buscador), utpatti prakaranam (sobre a criação), sthiti prakaranam (sobre a existência), upasanti prakaranam (sobre a dissolução ou quietude) e nirvana prakaranam (sobre a libertação definitiva).
...Na cidade de Ayodhya, no norte da Índia,  podemos visitar um bonito templo, o Vasistha Mandir, que representa o gurukula onde os príncipes viveram, estudaram e aprenderam com este grande mestre.

As instruções transmitidas são muito úteis não só para o estudante de Vedanta como também para o hatha yogi.

Mas quem são aqueles realmente qualificados para estudar esta escritura?

É referido no início deste shástra que o diálogo é dirigido a todos aqueles que sentem suas limitações mas ao mesmo tempo querem ser livres. Que não são totalmente ignorantes mas também não são iluminados. “
  
O diálogo que se segue é um excerto retirado da 6ª secção (nirvana prakaranam).

Diálogo entre Vasistha e Rama sobre sobre a Doença (Vyadhi e Adhi) e suas Causas

“(...) Rama perguntou:
O que são as doenças (vyadhi), e o que são os distúrbios psíquicos (adhi)  e as condições degenerativas do corpo? Peço-lhe por favor, que me esclareça sobre estes assuntos.
Vasistha continuou:
Adhi e vyadhi são fontes de sofrimento. A sua prevenção  é a felicidade, a sua interrupção é a libertação. Por vezes elas surgem juntas, às vezes originam uma à outra, e outras vezes ainda elas se sucedem. A doença física é conhecida por vyadhi, e o distúrbio psíquico causado pelo condicionamento psicológico (neurose) é conhecido por adhi. Ambas estão enraizadas na ignorância e na maldade. Elas cessam quando o auto-conhecimento ou o conhecimento da verdade é obtido.
A ignorância dá lugar à ausência de auto-controlo, e assim é-se constantemente invadido por ‘gosto’ e ‘não gosto’, e por pensamentos tais como ‘eu conquistei isto, eu ainda tenho que conquistar aquilo’. Tudo isto intensifica a ilusão e conduz aos distúrbios psíquicos. 
As doenças físicas são causadas pela ignorância, e simultaneamente, pela ausência total de restrição mental, o que leva a hábitos alimentares e de vida impróprios. Outras causas incluem actividades inoportunas e irregulares, hábitos pouco saudáveis, más companhias e pensamentos perversos. Elas também são causadas pelo enfraquecimento, agitação ou obstrução das nadis, impedindo assim o fluxo livre da força vital (prana). Por último, elas são causadas por um ambiente pouco saudável. Todos elas são, evidentemente, determinadas pelos frutos das acções passadas, realizadas num passado próximo ou distante.
Vasistha continuou:
Todos estes distúrbios psíquicos e doenças físicas surgem a partir dos quíntuplo elementos. Vou agora dizer-te como é que elas deixam de existir. As doenças físicas são de dois tipos: comuns e sérias. A primeira surge devido a causas do quotidiano, enquanto que a segunda é congénita. A primeira é corrigida através de meios terapêuticos medicinais, adoptando também uma atitude mental adequada. Mas o segundo tipo de doença (sérias), assim como os distúrbios psíquicos, não terminam até que o auto-conhecimento seja obtido. A cobra que é vista na corda apenas morre quando a corda é novamente vista como corda. O auto-conhecimento leva ao fim de todos os distúrbios físicos e psíquicos. Contudo, as doenças físicas que não são psicossomáticas podem ser tratadas com o auxílio de medicação, orações, e pela acção correcta, como também por banhos. Todos estes  têm sido descritos nos tratados médicos.
Rama perguntou:
Peço-lhe por favor, diga-me como é que a doença física surge dos distúrbios psíquicos, e como é que pode ser tratada por outros meios que não recorrendo à medicina. 
Vasistha continuou:
Quando há confusão mental, o nosso caminho não é compreendido com clareza. Incapaz de ver o caminho à sua frente, o caminho errado é seguido. Assim, e devido a esta confusão, as forças vitais são agitadas fluindo ao acaso ao longo das nadis. Como resultado disso o prana é esgotado em algumas nadis enquanto que noutras encontra-se bloqueado.
Depois seguem-se os distúrbios no metabolismo, indigestão, apetite excessivo, bem como funcionamento impróprio do sistema digestivo em geral. O alimento ingerido transforma-se em veneno. O movimento natural dos alimentos dentro e através do corpo é detido. Isto dá origem a várias doenças físicas.
É assim que os distúrbios psíquicos levam a doenças físicas. Assim como myrobalan é capaz de movimentar os intestinos, certos mantras como ya, ra, la, va, também podem curar esses distúrbios psicossomáticos. Outras medidas a adoptar são acções auspiciosas e de natureza pura, o serviço a homens santos, etc. Através destes, a mente torna-se pura, e uma grande alegria brota no nosso coração. O fluxo das forças vitais ao longo das nadis passa a fluir como deveria (ou seja, correctamente). A digestão torna-se normal e as doenças cessam. (...)” 

...As duas passagens seguintes também fazem parte da 6ª secção (nirvana prakaram). Os temas de reflexão (mananam) são o auto-conhecimento, o domínio da força vital (prana) e a causa da iluminação, já referidos por Vasistha directa ou indirectamente no diálogo anterior. 


Os dois tipos de Yoga

Vasistha disse:

“O auto-conhecimento é um tipo, o domínio da força vital é o outro. Embora o significado de yoga se refira ao segundo tipo, ambos os métodos conduzem ao mesmo resultado. Para uns, o auto-conhecimento pela investigação e reflexão (vichára) é difícil, enquanto outros consideram o yoga como sendo o mais difícil. Mas a minha convicção é que o vichára é mais fácil para todos, simplesmente porque o auto-conhecimento é aquela verdade sempre presente em nós.” 

O guru e o discípulo

Nesta passagem, shrí guru Vasistha conta a shrí Rama o episódio em que a rainha Cúndálá coloca esforços no sentido de trazer o auto-conhecimento e iluminação ao rei, seu marido. Ele, indiferente, permaneceu ignorante.
“(...) Rama perguntou:
Se até mesmo uma siddha-yogini tão grandiosa como a rainha Cúndálá não pôde trazer o despertar espiritual e iluminação ao rei Sikhidhvaja, como se pode afinal obter a iluminação?
Vasistha respondeu:
A instrução dada a um discípulo pelo seu mentor faz parte da tradição, no entanto  a causa da iluminação reside na pureza da consciência do discípulo. Não é pelo ouvir, nem por actos justos que o auto-conhecimento é alcançado. (...)”


Tradução livre dos excertos,
 do inglês para o português  por Gonçalo Correia
a partir do livro “The Supreme Yoga”, Swami Venkatesananda

Anatomia e Fisiologia:


Reflexão sobre a Relevância do seu Estudo no Contexto da Prática de Yoga

Gonçalo Correia

Ao reflectirmos sobre a relevância e importância do estudo da anatomia e fisiologia do ser humano no contexto do Yoga sádhana, é interessante começar por enumerar algumas das suas vantagens mais evidentes. Elas são:

1.      Prevenir e tratar lesões;
2.      Detectar precocemente ‘vícios’ que poderiam levar a uma prática incorrecta;
3.      Utilizar uma linguagem clara e ao mesmo tempo simples, durante a descrição das técnicas de yoga;
4.      Ganhar familiaridade com os termos técnicos básicos dos livros de anatomia e fisiologia, para facilitar o estudo e consulta dos mesmos.

Por vezes o praticante de yoga em busca de um entendimento mais profundo (por exemplo, sobre como respirar correctamente no pranayama, sobre se se deve meditar de olhos abertos ou fechados, etc) procura em diferentes escolas esclarecimento. Essa  busca é positiva se o levar a  identificar aqueles aspectos essenciais e comuns a todas essas metodologias ou escolas. Chamar-lhe-emos de aspectos universais pois ao identificá-los realizamos o poder das técnicas. Neste contexto, estudar anatomia e fisiologia segundo uma perspectiva yoguica, aliado a um sentido prático da vida, é com certeza um bom contributo.

O ponto de partida no nosso estudo é perceber qual é a função ou dever do osso e do músculo, qual é a função da articulação, etc. Isso é o que chamamos de dharma do corpo humano: os princípios reguladores que mantêm o equilíbrio, bem-estar e a saúde do nosso corpo. Por sua vez o sucesso do karma (acção e frutos das acções) depende do dharma (função, dever). Por exemplo, se cada uma dessas partes cumprir a sua função, ao entrar, permanecer e sair do ásana vamos sentir estabilidade e conforto. Estabilidade e mobilidade corporal são funções atribuídas ao aparelho músculo-esquelético, a base de sustentação do nosso corpo. De uma forma geral, a anatomia e fisiologia contribui para entender o dharma ou funções dos diversos sistemas do corpo. E isso tem um grande impacto quer na nossa prática diária quer num contexto de sala de aula. No caso do professor de Yoga, depara-se inevitavelmente com alunos com diversas situações, como má circulação sanguínea, artrose, dores de cabeça, ansiedade, fadiga mental ou ainda outro tipo de patologias. O estudo aliado à nossa experiência pessoal do Yoga torna não só mais fácil e metódico como também intuitivo lidar com este tipo de problemas. Permite-nos, por exemplo, adaptar e ensinar de forma personalizada os ásanas, as técnicas de pranayama, relaxamento ou de meditação. Enfim, isto só para citar algumas das técnicas de yoga mais conhecidas. A ideia é que o yoga possa ser praticado por todos aqueles que tenham vontade independentemente da condição física e mental de cada pessoa.
E já que estamos a falar de Yoga convém referir que as medicinas e terapias orientais como o Ayurveda procuram promover o equilíbrio geral na vida do indivíduo. Ou seja, em vez de focarmos no combate da doença vamos antes promover a saúde e adquirir hábitos saudáveis. Por outras palavras, em vez de pensarmos em ‘combater o cancro da pele’, porque não ‘promover a saúde cutânea’? É uma questão de perspectiva mas que pode sem dúvida fazer muita diferença!

Colocar-se como espectador (sakshi) no próprio sádhana é fundamental até chegar ao ‘o que fazer, como fazer e quando fazer’. Devemos ser sensíveis a isto e não buscar receitas.

Em suma, o mais importante é estudar, digerir, voltar a estudar, ... e ir digerindo. Após um período de algum estudo acredito que muitos estarão já aptos a responder a questões do género das que se seguem, entre muitas outras. Que funções  desempenham os músculos para além do movimento? Porque é que no pádmasana devo trabalhar a flexibilidade da anca e não do joelho? Qual o impacto da postura corporal correcta em relação ao efeito fisiológico dos ásanas? E entre a activação muscular, a circulação e drenagem linfática? O sistema nervoso é o principal centro de comando do corpo. Em que elementos é que se baseia para tomar as suas decisões? Porque é que as hérnias discais surgem na maioria dos casos no fim da cervical ou no fim da lombar? Qual a influência da parte voluntária do corpo na involuntária?

Estudar o corpo humano de uma forma sistematizada abre a nossa percepção e entendimento. Lembrem-se que o primeiro nível de qualquer tipo de yoga é descrito na Hatha Yoga Pradipika por Svatmarama como arambha avastha, o estágio dos benefícios fisiológicos: forte apetite, boa digestão, alegria, uma imagem bonita, grande coragem, entusiasmo e força plena. No Yoga Sutra, Patañjali refere que a doença (vyadhi) e inércia (styana) causam inquietação mental que nos impedem de nos conhecer verdadeiramente, como realmente somos. E isto é muito prático. Na vida temos que o ser. Se não tivermos saúde e se não cuidarmos minimamente do corpo, não será possível seguir na caminhada que é o Yoga.

Ao longo dos mais de 11 anos de ensino ainda me continuo a surpreender com o impacto positivo que o Yoga tem na vida das pessoas, enquanto contributo para a melhoria da qualidade de vida (saúde e equilíbrio mental em geral) daqueles que o praticam como também no sentido de expandir a visão de si mesmos.

O estudo da Anatomia e Fisiologia no contexto do Yoga é apenas o início, a ponta do icebergue. o Yoga vai bem mais além, o foco não é esse. Quer na Hatha Yoga Pradípika como na Shiva Samhita, além do arambha avastha (o estágio dos benefícios fisiológicos) é referido que toda a prática de Yoga abrange mais 3 etapas. O Yoga Sutra não foge à regra. Para além da doença (vyadhi) e da inércia (styana) são enumerados mais sete obstáculos (de carácter mental, intelectual e espiritual). Além destas, são referidas mais quatro causas que advêm das distracções prévias.

Desejo-vos boas reflexões e principalmente inspiração e sucesso na vossa prática de Yoga diária.


15.3.13

Uma perspectiva pessoal sobre a Tradição do Yoga

Entrevista de António Matos a Gonçalo Correia


As perguntas que se seguem foram colocadas pelo colega António Matos, no âmbito de um trabalho para a cadeira de Introdução às Religiões da Ásia, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. As questões seleccionadas incidem sobre o Hatha Yoga em particular, sua origem e objectivo final, relação com outros tipos de Yoga como Raja e Jñana, a Tradição num contexto contemporâneo, etc. Tentei responder de forma clara e segundo a minha própria vivência. Espero que as respostas vos possam ser úteis e sejam esclarecedoras de algumas questões que possam ter.  
Você está formalmente ligado a alguma sampradaya tradicional com raízes na Índia, e a alguma instituição yogica no ocidente?
Num determinado Satsang no Yoga Hall do Shivananda Ashram, com vista para o rio Ganges, um indiano pediu ao Swami Muktananda ji para ser iniciado como seu discípulo. O swami ji respondeu-lhe que se ele praticasse os seus ensinamentos, se dedicasse um momento do dia para a interioridade, para a meditação então tornar-se-ia seu discípulo. Não seria, portanto, necessário formalizar a iniciação. 
Sei que existem gurus genuínos que não iniciaram formalmente nenhum discípulo. Estou ligado a alguns yogis, que com o seu olhar, ensinamentos e presença me inspiraram. Não estou ligado a nenhuma instituição yogica no Ocidente.   

Hatha yoga é o "yoga da harmonia do Sol e da Lua (+ e -)" ou é o "yoga da força/violência"? Como definiria Hatha Yoga?
Hatha Yoga é o Yoga da harmonia de Ha (sol) e Tha (lua), pingala e ida, prana e citta, acção e observação. Mas também simboliza a dissolução de citta no Atma com o despertar da Kundalini Shakti (Atmashakti) a Energia Criativa do Ser.
Para mim o Hatha Yoga tem sido aquele aspecto do Yoga com o qual me preparo para receber os estados meditativos de uma forma mais consistente e natural. O Yoga não cria nada de novo mas conduz a uma percepção mais clara e dá-nos confiança para compreender a Realidade Imutável, aquilo que sustenta a vida.

Podemos estabelecer uma relação de criação e pertença do Hatha Yoga à Nath Sampradaya?
O que eu sei é o que dizem os shastras. É dito que foi Shiva quem transmitiu o Hatha Yoga a sua primeira aluna, a esposa Parvati. Os Tantra shastras muitas vezes aparecem sobre a forma de diálogo entre Shiva e Parvati. No Hatha Yoga Pradipika está escrito que foi Adhinath (Shiva) quem primeiro ensinou o Hatha Vidya. Svatmarama seu autor refere que aprendeu com os mestres Matsyendranath e Gorakshanath. Diz também que alguns dos asanas descritos foram adoptados por yogis como Matsyendranath e munis como Vasishtha. Ora, Vasishtha era um famoso Jñana Yogi, a quem se atribui um tratado intitulado Yoga Vasishtha. Isto prova que os asanas são importantes no contexto não só do Hatha Yoga mas também de qualquer Yoga Sadhana.


O Hatha Yoga é mais baseado em tradição (oral) ou em literatura escrita? Qual a literatura fundamental do Hatha Yoga?
Não há dúvida de que a literatura escrita é importante e uma referência mas aquilo que de mais profundo aprendi não só sobre Hatha Yoga como em Yoga em geral, foi em ambiente de satsanga.
Aqueles com os quais estou mais familiarizado são o Hatha Yoga Pradipika, Gheranda Samhita, Shiva Samhita e Goraksha Shataka. Existe também um livro muito interessante, o Bhavartadipika, que é um comentário à Bhagavad Gita e cujo autor é Jñanesvari, reconhecido poeta e hatha yogi, jñani e bhakta.

Qual a relação entre Hatha Yoga e Yogasutras (atribuídos a Patañjali)?
O caminho do Hatha Yoga é a via do Prana. O Patañjala Yoga ou Yoga Darshana é a via de Citta (mente interior ou consciência). Ambos se complementam. O tema é o mesmo, contudo a perpectiva é diferente. Svatmarama ensina-nos a arte e ciência da “respiração” (convergir o prana) por sushumna nadi (sushumna nirodha). Enquanto Patañjali expõe a arte de suprimir as flutuações (vritti nirodha) da mente. Em ambos os casos, pretende-se expandir a consciência e conhecer-se além dos limites da mente (atmajñana).

O Hatha Yoga é completo em si mesmo como caminho de libertação, ou carece de Raja yoga e Advaita Vedanta (jñana yoga)?
Não há dúvida que cada caminho tem práticas e filosofia próprias. Mas é também necessário ver que o Hatha Yoga, o Raja Yoga e o Jñana Yoga estão interligados. Todos apontam no sentido de reconhecermos aquilo que somos realmente. É difícil dizer onde começa um e termina o outro.
É dito claramente no Hatha Yoga Pradipika que o Hathayogavidya (Hatha Yoga) é como uma escada e um meio para a realização do Raja Yoga. Raja significa ‘real’, ‘rei’, ou citando Sri BKS Iyengar ji, Raja é o Ser (Atma). Este tipo de Yoga é dirigido àqueles que vagueiam na escuridão da diversidade de opiniões, incapazes de seguir o Raja Yoga. No quarto capítulo Svatmarama salienta que aqueles que não conhecem o Raja Yoga e praticam apenas o Hatha Yoga desperdiça a sua energia inutilmente. Todos os tratados enumerados anteriormente contêm ensinamentos de Raja e Jñana Yoga.

Qual o objectivo final do Hatha yogin, e como alcançá-lo? Samadhi é o culminar do processo yogico, e uma experiência momentânea de esclarecimento acerca do Ser, ou é a libertação final, e sempre presente? Como compreender samadhi e moksha neste contexto?
Antes de mais o objectivo do Yoga é tornar-me um ser humano melhor, mais consciente e com um estilo de vida sattvico. Mas para termos sucesso é também necessário viver de acordo com os princípios do Yoga, ter senso comum e cumprir com o seu dharma. Depois podemos pensar em samadhi e moksha enquanto objectivo. 

Hatha yoga tradicional e saúde/terapia estão ligados?
Saúde é algo de muito genérico. Pode ser física, mental, emocional, etc. Voltemos aos Hatha Yoga Shastras. Os asanas são o primeiro passo e praticam-se para se obter flexibilidade, saúde, energia e estabilidade. A descrição posterior dos asanas e respectivos benefícios refere-se também à purificação das nadis, à união do prána com apana, ao despertar da kundalini, etc. Temos que ser práticos. Se não tivermos saúde e se não cuidarmos mínimamente do corpo, não será possível seguir na caminhada que é o Yoga. A doença (vyadhi) e apatia (styana) são obstáculos ao yoga sadhana, causam inquietação mental.

O Hatha yoga tradicional como caminho de libertação é possível fora de uma estrutura monástica e iniciática, com dedicação intensiva e exclusiva?
Já referi na pergunta 3 que a iniciação pode não acontecer de uma forma formal. O mais importante é que a busca seja sincera e haja determinação. Se o sadhaka fôr paciente, mais cedo ou mais tarde vai se cruzar com yogis genuínos que o reconhecem, ajudam e instruem, independentemente de ele pertencer a alguma tradição ou ser iniciado. A pureza do coração do sadhaka conta muito. Todos estes factores juntos potenciam a sua caminhada.
No Yoga como caminho da libertação, os períodos em que o yogi se dedica exclusiva e intensamente ao sadhana, 1 vez por ano, por exemplo, são benéficos. Mas isso serve de pouco se não houver sadhana regular, diário, especialmente se se trata de um professor de Yoga. As opiniões são diversas, mas não nos esqueçamos que maiores que os obstáculos externos, são os internos, os que estão na mente e que nos acompanham para todo o lado. Yogi é aquele que se conquistou a ele próprio, onde quer que ele esteja, vive em paz.

O Hatha yogin tradicional é necessariamente vegetariano e abstémio? Qual a importância do vegetarianismo?
Da última vez que estive na Índia tive oportunidade de estar com um Yogi amigo que por coincidência abordou esse assunto. Ele dizia que o alho não deve ser usado como alimento e sim como medicamento pelas suas propriedades, o café é um estimulante mas muita gente bebe dois, três, quatro cafés como se fosse uma bebida. Em relação às bebidas alcoólicas, ajudam a digerir a carne e alimentos pesados. Ele é swami e vegetariano desde nascença, mas fala abertamente e com clareza sobre este tema.
Penso que o processo deve ser natural, uma escolha sincera, não imposta por outros e muito menos para nos inserirmos e sermos aceites em determinados grupos de pessoas ou instituições, sejam eles ligados ao Yoga, à Religião, Ecologia, etc. É necessário discernir e sentir o que apoia e promove o sadhana, e o que se opõe, e se as nossas opções vão ao encontro daquilo que queremos viver. O Yoga não condiciona, liberta.

Como vê as diferenças entre uma vida de Hatha yogin tradicional, renunciante, iniciática, e o hatha yogin contemporâneo ocidental, que faz cursos de formação (inclusive profissionais), workshops de especialização e aulas de yoga com vários professores?
Actualmente temos no Ocidente um acesso incrível ao Yoga e ao Conhecimento. Temos muito bons professores a ensinar, com dezenas de anos de experiência. Tudo está muito mais disponível e isso é positivo. Mas também possibilita, simples praticantes ou até mesmo professores, a acumular cursos e experiências, de um modo puramente superficial e conhecimento ao nível mental sem que seja realmente compreendido, digerido e realizado aquilo que é transmitido. E isso não é positivo. Primeiro que tudo somos praticantes (sadhakas) e devemos colocar-nos nessa posição em primeiro lugar. Enquanto professores devemos ensinar a partir daquilo que digerimos e é a nossa experiência. Vou dar um exemplo: se faço um intensivo de 2 semanas, 5 horas por dia, com o Swamiji (Rudra Dev) que estuda e pratica à 35 anos com o mesmo guru, com toda a sua experiência de vida, quanto tempo preciso para compreender e digerir aquilo que me ensina?
Na minha opinião podemos experimentar diferentes métodos, fazer workshops, etc, mas é preferível e mais fácil se estudarmos e formos acompanhados pelo mesmo professor pelo menos durante uns anos. Nesse tempo estabelecem-se laços que vão além do ensino das técnicas e muito do conhecimento do que é o Yoga é transmitido no silêncio. A relação de confiança entre o professor e o aluno cria espaço para um acompanhamento mais personalizado.          

Granthis, Chakras, nadis e Kundalini são linguagem simbólica ou correspondem a realidades psico-físico-energéticas?
Granthis, Chakras, nadis e Kundalini são realidades percebidas através da prática, pela sua experiência directa.

E prana/pranayama?
Prana é força vital, a energia da vida. A respiração e circulação é a sua manifestação externa (sthula). O Pranayama diz respeito à expansão e distribuição do prana através de técnicas respiratórias. O prana é influenciado de forma negativa ou positiva pela qualidade das nossas actividades diárias, relações, tendências mentais e emocionais, alimentação, etc. Isso reflecte-se primeiro no corpo subtil e conjunto de nadis, granthis e chakras, e depois ao nível da nossa saúde e vitalidade geral. O pranayama trás firmeza ao corpo e conduz a introversão dos sentidos e da mente (pratyahara) indispensável para limitarmos a actividade mental (dharana) e mergulharmos na essência das coisas através da meditação (dhyana).

O mais importante é a postura física ou a respiração (pranayama) e atitude interior (bhava, visualizações, meditação, etc.)?
Todos estes aspectos estão interligados e comunicam entre si. Uns conduzem aos outros.

Como avalia a actual variedade de asanas, com muitos trikonasanas e outras posições, e muitos vinyasas, que não aparecem nos shastras?
A Tradição é dinâmica, pois mantém a sua essência, mas a forma como é transmitida  pode mudar porque o mundo está sempre em mudança. Para entender isso basta conhecer a vida de grandes yogis como o Sri Ramakrishna, Swami Sivananda, Krishnamacharya, etc.

O Hatha yogin contemporâneo ocidental, deve ter algum papel activo e responsável na sociedade?
Todos os Yogis sejam eles de qualquer parte do mundo, têm um papel activo e responsável na sociedade. Mesmo os sadhus que vivem nas grutas estão em contacto com o mundo. Eles recebem visitas, dão conselhos práticos sobre a vida, ensinam, etc.  

26.10.10

Swamiji on Advaita Vedanta and Meditation

.
Preface

In 2004 I had the opportunity of going 5 months and alone to India for intense Yoga Sadhana.
I was blessed for participating in the Christmas Retreat in Shivananda Ashram where I met Swami Muktanandaji.

After that, I started to participate in the Satsangs, near the Ganga, in the Shivananda Yoga Hall. I had thirst for knowledge so I tried to take notes of swamiji's teachings but some how that "was not working out".

Then I simply decided not to take notes. I started to listen, I trusted and learned what is to be in silence. To my surprise after the satsangs, I remembered most of the teachings! So I started to meditate every day and taking notes after the Satsangs.

After compiling and reviewing those pearls of Advaita and real meditation, with swamiji's permission, I'm sharing these advaitic lectures with everyone.

The introduction is from www.savitari.com, and the photos were taken by the same author of the website. Thanks to Yasmin.

Gonçalo Correia, Porto (Portugal), 2010


Swami Muktananda ji

(Satsangs in Rishikesh)

Read more,

Download Complete Satsang Notes

Waking, dreaming and deep sleep states of consciousness

In deep sleep, after deep sleep we wake up and feel happy, full of energy. But we don't know from were that energy comes. We are not aware, I mean, the mind don't know, the ego don't know. So, its other dimension of joy and happiness on wich the mind don't interfere, don't know. Hum... interesting.

(. . .)

Who is the "I am"?
In order to know who is the "I" we need to know the "I am". The wave looking to the other waves see them as waves. The wave can never become the ocean unless the wave is aware she is water, her essence is water. Ho… And the ocean is water. Gee...
The waves exist because of the ocean. The wave exists because of the water.

(. . .)

What you really Are is inseparable from Peace and Silence

When we rest in that inner peace which is silence inside, our thoughts became clear and there are no place for confusion and delusion in our mind. Bliss takes place. However, sometimes we can think that that bliss comes from the thoughts. In this sense we identify bliss with thoughts in our mind or sometimes with the experience on the sensorial level, the external world. Then, instead of resting inside we rest on the thoughts, on the sensorial experience. Sooner or later suffering and confusion comes, because thoughts come and go. The source of bliss, Bliss himself comes from inside, not outside. Inside to outside. Unless we cannot feel it, it's to difficult to live. When we feel it everything becomes clear.

(. . .)

Swamiji sayings Truth and Life

"Beyond the world of names and forms there is God. God using a mask, this universe."

"Love, true love is Advaita"

"That which creates time is that light of Truth believing in the world of images."

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7.10.10

Para o bem de todos os seres

Gonçalo Correia
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O conhecimento (jñana) sobre a natureza da nossa relação com o Ser Supremo é exposto em diferentes escrituras, desde as Upanishads aos Puranas entre outros shastras e textos védicos. As Upanishads são denominadas de shruti, ou "aquilo que é ouvido" ou revelado enquanto que os Puranas são denominados de smriti, que significa "aquilo que é lembrado" depois de ser ouvido, memorizado. Porém, este não é um tipo de conhecimento qualquer, cujo objectivo serve unicamente a satisfação e o entretenimento intelectual sobre um ou vários temas. Ao contrário, fala sobre aquilo que é Eterno e Imutável em nós e no Universo, da nossa Essência, para que cada um de nós, cada ser (jiva), possa relembrar a dimensão real de si mesmo. Por isso considera-se que as escrituras são também intemporais e idênticas ao que declaram.

Desse modo ensina-nos a viver melhor, a entender o nosso propósito neste mundo, relação com os outros e com a lei natural das coisas. Perceber a natureza daquilo que buscamos, o que buscamos e para onde nos leva essa busca, dá-nos a clareza necessária para vivermos mais tranquilos e sermos felizes nesta vida, agora mesmo. Não será isto a libertação dos
condicionamentos, o fim das aflições pelas quais o ser humano padece embora não signifique que deixemos de encontrar obstáculos na nossa vida?

Voltando ao ensinamento, verificamos que distintas tradições seguem diferentes sha
stras, ou então, possuem outras tantas interpretações dos mesmos textos sagrados, conforme a vivência da Realidade que têm. No entanto, se estivermos disponíveis para o estudo e reflexão, identificamos muito em comum: "a unidade na aparente diversidade". Senão vejamos o 1º, 4º e 5º verso da Ishopanishad e o passatempo (lila) de Krishna (Bhágavata Purana) em que o menino se deixa amarrar por sua mãe Yasoda.

Na Ishopanishad é referido que "O Ser Infinito está presente nos corações de todos. / O Ser Infinito é a suprema realidade. / Regozijemo-nos nele através da renúncia. / Não cobiçes nada, pois tudo ao Ser pertence. 1/ (...) O Ser é uno. Sempre imóvel/ o Ser é mais veloz que o pensamento/ mais veloz que os sentidos. / Embora imóvel, ele alcança qualquer objectivo. /Sem o Ser, a vida não poderia existir. 4/ O Ser parece mover-se, mas está sempre quieto. / Parece estar longe, mas está sempre perto. / Está em tudo, e tudo transcende. 5"

Certa vez a mãe Yasoda, insatisfeita com o comportamento do menino
Krishna, avisou-o que se ele continuasse assim, o castigaria. Foi então que pegou numa corda para amarrá-lo, mas cada vez que chegava o momento de amarrar a corda, esta parecia que estava menor. Então ela pegava outra corda e amarrava à outra e tentava de novo, sem que conseguisse seu objectivo porque a corda parecia sempre insuficiente. Ela continuou a tentar várias vezes emendando corda por corda e nunca chegava ao comprimento necessário para que o pudesse amarrar... até que ficou muito cansada. Krishna vendo sua mãe tão cansada se compadeceu e deixou-se amarrar e Yasoda, mais tranquila, pôde voltar aos seus afazeres diários. Dessa forma, Krishna demonstrou Sua Potência Ilimitada!

O Ser nunca pode ser alcançado através do pensamento ou dos sentidos. Quantas meditações saíram frustradas por considerarmos que o Ser é algo separado de nós mesmos, que a mente precisa de obter, aprisionar ou "amarrar" como a mãe Yasoda tentava fazer com Krishna. Embora pareça mover-se, o Ser é uno e sempre imóvel. O Ser parece estar longe mas está sempre perto, está em tudo e tudo transcende. Sem que fosse oferecida qualquer resistência, Yasoda era incapaz de amarrar Krishna simple
smente porque a corda nunca tinha o comprimento necessário. A corda simboliza os três gunas (sattva, rajas e tamas), as qualidades da Natureza (Prakriti) responsáveis pela manifestação do Universo e de tudo o que existe nele. O cansaço de Yasoda, simboliza a entrega total ao Ser Infinito, Krishna, que está presente nos corações de todos, regozijemo-nos nele através da renúncia.

Este exemplo, entre outros (infinitos!), demonstra que os ensinamentos são acessíveis, disponíveis e existem para o bem de todos seres! Desejo-vos boas leituras.


Shri gurubhyo namah, Hari Om

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Links recomendados:

- Isha Upanishad

- Krishna lila (Bhagavat Purana)

- Sobre os três gunas recomendamos ler a Bhagavad Gita e os satsangas sobre o estudo (mp3)

6.6.10

O Yoga...

É
O Yoga é só um. As diferenças surgem quando a mente surge.

14.2.10

Astavakrásana

Quem foi Astávakra,
aquele que possui "oito deformações"?

Pico Ruivo (ilha da Madeira)

Astavakrásana é um conhecido ásana (postura) do hatha yoga dedicado ao sábio com o mesmo nome. Menos conhecido é o facto de que ele foi perceptor espiritual do Rei Janaka de Mithila (pai de Sita), e que o Astavakra Gita, uma escritura de Advaita Vedanta expõe o diálogo entre os dois.

As oito(asta) deformações ou curvas(vakra) encontram-se nos pulsos, cotovelos, ancas e tornozelos.

Mas afinal quem foi Astávakra?

Conta-se no Mahabhárata que Kahoda, pai de Astávakra, era um homem virtuoso e dedicado, mas cometia muitos erros quando recitava os Vedas. O menino que se encontrava no útero de sua mãe Sujata, ouviu e corrigiu o pai. Kahoda, ao sentir-se insultado com tal atrevimento, amaldicoou-o e o menino nasceu deformado com "oito curvas tortuosas" que deram origem ao nome Astávakra.

Certo dia Kahoda, provocou uma disputa polémica com Vandin, um estudioso versado na ciência da argumentação do Tribunal de Mithila e a derrota lamentávelmente levou à sua morte por afogamento.

Entretanto Astávakra cresceu e com apenas doze anos de idade já era um conhecedor profundo dos Vedas e do Vedanta.

Um dia soube que o rei Janaka iria realizar um grande sacrifício (yajña), reunindo também muitos estudiosos. Astávakra deciciu então partir para Mithila juntamente com o seu tio Svetaketu. Acontece que ao dirigirem-se para o local do encontro, depararam-se com o rei e a sua comitiva. "Saiam da frente, abram alas para o rei passar!" gritaram os assistentes do rei. Mas Astávakra em vez de se afastar respondeu-lhes:" até mesmo o rei, se é realmente um homem justo, tem de deixar passar os cegos, os deformados, pessoas que transportam cargas, as mulheres e os Bráhmanas versados nos Vedas. É esta a regra imposta pelas escrituras." O rei surpreendido pelas palavras sábias. aceitou os argumentos do menino bráhmana e desviou-se declarando à sua comitiva: "É certo que fogo é fogo independentemente de ser pequeno ou grande porque em ambos existe o poder de queimar." Astávakra e Svetaketu dirigiram-se ao salão e local do sacrifício, mas o porteiro impediu-os de entrar. "Os meninos não podem entrar! Apenas os homens de idade que aprenderam os Vedas estão permitidos de entrar." disse o porteiro. O menino respondeu: "Os cabelos brancos não demonstram a maturidade da alma. O homem realmente maduro é aquele que aprendeu os Vedas e Vedangas, domina e conhece a sua essência. Estou aqui para conhecer o Pandit do Tribunal, Vandin. Peço por favor, que informe o rei Janaka do meu desejo. " Naquele momento, Janaka já ia ao seu encontro e reconheceu fácilmente o menino que tinha encontrado anteriormente. Foi então que o rei perguntou:" Sabias que o Pandit Vandin já derrotou muitos grandes sábios no passado, fazendo com que estes fossem lançados no oceano? Isso não te impede de seguir em frente nesta perigosa aventura?" Astávakra respondeu:"O eminente estudioso Vandin tornou-se arrogante e vaidoso com vitórias fáceis sobre homens de bem mas que não eram estudiosos reais. Eu vim aqui para restituir a dívida do meu pai, derrotado por rste homem, como o ouvi pela minha mãe. Não me restam dúvidas de como vencerei Vandin!" No final do debate, a Assembleia declarou por unanimidade a vitória de Astávakra e a derrota de Vandin, o Pandit do Tribunal de Mithila, que se afogou ele próprio no oceano, dirigindo-se à morada de Varuna. Após esta vitória, Astávakra foi abençoado pelo pai e as deformações desapareceram definitivamente do seu corpo. E foi assim que o espírito de Kahoda alcançou a paz e alegria.

O autor do épico nos instrui através das seguintes palavras colocadas na boca de Kahoda: "um filho não precisa ser como o pai. Um pai que é fraco fisicamente pode ter um filho muito forte e um pai ignorante pode ter um filho sábio. É errado avaliar a grandeza de um homem pela sua aparência física ou idade. As aparências externas são enganadoras." Isto também mostra que o inculto Kahoda não era desprovido de senso comum.

Tradução, resumo e adaptação do Inglês para o Português
Mais detalhes sobre Astávakra no Mahabhárata, Vanaparva cap. CXXXII-CXXXIV
www.mahabharataonline.com

3.12.09

Meditação


Alguém que se senta para meditar
não é o meditante, é o objecto de meditação.
Esse alguém não atinge a transcendência,
é transcendido.
Aí, nesse instante, conhece a felicidade.
svarupa


5.10.09

.
O apego consome a força vital,
o desapego alimenta.
Quando os nós do coração são desamarrados, realizamos que afinal essa Força é inesgotável.

svarupa

30.9.09

A meditação de Rávana, Vibhísana e Kumbhakarana

Yogacharya B.K.S. Iyengar

Os três irm
ãos, Rávana, Kumbhakarana e Vibhísana, com diferentes objectivos na vida, decidiram dedicar-se à meditação. A meditação de Kumbhakarana que era tamásica e inerte em sua natureza, tornou-o preguiçoso e apático; embora tivesse um corpo forte, o seu interior permaneceu vazio. A meditação de Rávana era rajásica, cheia de ambições sensuais e intelectuais. A meditação de Vibhísana possuía as qualidades do guna sattva; plena firmeza física, clareza emocional e sabedoria intelectual, simultaneamente a sua intenção era genuína e a entrega total.

Podemos aprender muito a partir da meditação destes três irmãos: de Rávana e Khumbakarana aprendemos a sublimar o ego, rejeitando tanto a preguiça como a cobiça e ambição desmedida; de Vibhisana a cultivar a humildade, virtuosismo e a nos rendermos a Paramátma, como a mais elevada qualidade de dhyána. Somente através de dhyána, o ritmo que representa a ordem interna para a paz pode ser estabelecido.

Hoje em dia muitas pessoas começam a medita, mas elas acabam ficando no estato inerte de vazio de Kumbhakarana, ou tornam-se egoístas e cheias de orgulho intelectual como Rávana. Mas Vibhísana nunca declarou a sua devoção ou a meditação. Ele é a personificação de bhakti e dhyána. Ele entregou-se completamente a Sri Rama, desistindo de todas as amarras. Ele é um exemplo para nós aspirarmos pela meditação.

Estou confiante de que o Yoga enquanto disciplina desempenha um papel importante para aqueles que constroem a paz e alegria, não só em si mesmos, mas também para a sociedade. Sendo um deles, é meu dever continuar, pelo menos com os meus alunos, a manifestar o que é a paz interior.


Este texto foi extraído e traduzido por Gonçalo Correia a partir do inglês do volume 4 do Astadala Yogamala (conheça a revista clicando aqui).

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Para saber mais:


- sobre os três irmãos, Rávana, Kumbhakarana e Vibhísana recomendamos a leitura do Rámáyana; - sobre os gunas (tamas, rajas e sattva), dhyána, bhakti e Paramátma leia a Bhagavad Gita e escute em formato mp3 o estudo da Bhagavad Gita no site dharmabindu.

Hari Om Tat Sat

O Hathayogavidyá
é o reconhecimento de si mesmo
como a sublime Dança Cósmica
entre a Acção e a Contemplação,
Shákti e Shiva, Prakriti e Purusha,
Íshvari e Íshvara...

... Um aparecendo como dois.
svarupa




(Foto tirada no templo de Parvati em Pune, Índia. Clique na imagem para ver maior)

4.9.09

..Yogakshetra significa que o Yoga manifesta-se onde tu estás.
svarupa